Carreira desordenada

Recentemente, o jornal norte-americano Inforworld, especializado em tecnologia da informação, publicou a seguinte reportagem: “Brasil: será a próxima Índia?”. O texto debatia as qualidades dos profissionais brasileiros e questionava se já não era o momento de as empresas daquele país considerarem, efetivamente, a oferta brasileira como alternativa para offshoring. 

Em solo nacional, o governo definiu, em 2006, plano de formar 10 mil programadores de software até 2009. Destes, no entanto, apenas 350 dos 1300 alunos que iniciaram o projeto foram certificados em 2008. Nem por isso, a meta defendida há dois anos pelo então ministro do desenvolvimento, Luis Fernando Furlan. Mesmo com o baixo resultado, o plano está mantido, e o governo contingenciou 15 milhões de reais para a formação destes profissionais no próximo ano. 

Mas um terceiro fator pode fazer desandar o brilho da área de TI frente aos potenciais profissionais brasileiros e, assim, reduzir o potencial do País de conquistar espaço significativo cenário global, em especial, neste momento de crise financeira internacional: o plano de carreira. 

As universidades vêm ajustando currículos à demanda de mercado e as próprias empresas não negam recursos financeiros para manter suas equipes atualizadas tecnologicamente, e anunciam, aos montes, vagas para capitação de profissionais qualificados. 

Um cenário perfeito não fosse o resultado de um estudo feito pela EXIN, cujo resultado aponta que 58,9% das organizações não possuem um plano de desenvolvimento definido para a carreira de seus profissionais de TI. 

O Exin, instituto holandês independente e sem fins lucrativos, que desenvolve, organiza e realiza exames educacionais na área de tecnologia da informação, encomendou a pesquisa Perspectiva do Investimento no Profissional de TI, com o objetivo de mapear a qualificação da capacitação humana no setor de tecnologia da informação no Brasil. 

A principal conclusão do estudo realizado pela consultoria MBI aponta que nas empresas de 58,9% dos profissionais entrevistados não há plano de carreira definido. "Estes dados confirmaram minha percepção de que a área de TI não se preocupa em definir uma estratégia de desenvolvimento profissional como acontece com outras áreas dentro das organizações", afirma Luciana Abreu, gerente regional do EXIN no Brasil.

Visão 360º 

"O dado de 58,9% somado aos 39%, que indicam que boa parte dos investimentos na profissionalização está destinada para treinamentos técnicos, corroboram apenas a necessidade de suprir um vácuo imediato do setor e não de se preparar uma futura carreira para o profissional". 

Altos valores de investimentos destinados para a área de TI já fazem parte deste cenário: 31,1% investem de 1 milhão a 10 milhões de reais por ano; 28,9% de 100 mil a 1 milhão; e 16,1% de 10 milhões a 100 milhões de reais. A boa qualificação dos profissionais também: 45% deles são pós-graduados, principalmente em informática e administração, do alto grau de experiência, 65% tem entre 11 e 30 anos de mercado, e da fluência em inglês, 34,4%, segundo a pesquisa. 

Entre os profissionais entrevistados, apenas 43,3% afirmam que a empresa onde trabalham possui um CIO (chief information Office). Diante deste cenário, 13,3% dos diretores estão na instituição entre 11 e 30 anos, mesmo exercendo outras funções anteriormente; e 10,6% estão há, no máximo, cinco anos. Aqueles que exercem a função há, no máximo, cinco anos, somam 17,3%. 

De forma geral, 22,2% dos CIOs construíram suas carreiras dentro da área de TI. No governo, este número passa para 50%, 46,2% em infra-estrutura e 42,9% em finanças. Porém, o estudo aponta ainda um alto índice de empresas que não possuem CIO, 56,7%. "As companhias brasileiras, principalmente as de pequeno e médio porte, ainda não entenderam a importância de se ter um diretor de tecnologia da informação que irá também olhar para o negócio da empresa", analisa Luciana. 

Do universo das empresas que não possuem CIOs, encontram-se companhias de segmentos diversos como indústrias (55,1%), atacado e varejo (54,5%) e setor agropecuário (42,9%), principalmente.

Conteúdo republicado a partir de http://www.tiinside.com.br/Revista.aspx?ID=110365