Para onde vamos

O ano 2004 revela um panorama mais animador em questão de investimentos para a área TI. Mas as empresas ainda precisam suprir deficiências de medição.

Em ritmo de Olimpíadas, uma parábola simples sobre as expectativas das áreas de tecnologia da informação para este ano é de que elas deixem o marasmo de uma caminhada lenta, de poucos investimentos. No entanto, é pouco provável que engatem uma arrancada digna de uma prova de 100 metros rasos. Mais próximo da realidade está um cooper, ou uma marcha atlética, para ficarmos nos esportes olímpicos. Ao menos, é o que indica o estudo Panorama – A Tecnologia nas Corporações, edição de 2004, realizado por INFORMATIONWEEK Brasil pelo quarto ano consecutivo: 78% das 214 empresas participantes esperam aumentar o investimento em TI em relação a 2003. 

Mas há um detalhe curioso: comparada ao ano passado, a média do orçamento para a área dentro do faturamento total da empresa permanece nos mesmos 4%. O que indica que novos investimentos tecnológicos estão diretamente ligados à esperada decolada para um novo ciclo de negócios. 

Ou vice-versa: ao apostar no reaquecimento da economia, as companhias se mostram mais interessadas em fortalecer uma área que vem se mostrando estratégica para o crescimento da organização, como nas Tintas Coral. Em relação ao ano passado, o aumento na verba de TI, independentemente do que a empresa vier a faturar, deve ser de 10%. Um número tímido perto da média de 20% apontada na pesquisa de 2003, em comparação com 2002, que acabou não se concretizando, mas acima da tendência de aumento de 5% para este ano, calculada pelo instituto de análise de mercado Gartner. Para Claudiney Belleza, gerente de TI da Coral, a elevação da verba revela um mea-culpa dos executivos de negócios. “Eles sabem que é hora. Depois de dois anos sem investimentos em tecnologia ficam visíveis a elevação dos custos e a perda de eficiência”, acredita. No entanto, 70% do orçamento da área já estão comprometidos com o projeto de refresh dos sistemas de gestão empresarial (ERP), em andamento no Brasil. “Não é só a atualização da versão Magnus para EMS, tem muito de mudança no processo”, comenta Belleza. 

Já no caso da DaimlerChrysler – que trabalha com a possibilidade de redução no orçamento de TI para este ano – o ERP não é mote de um grande projeto e mesmo assim é, como de costume, endereço de 15% da verba da área. “Isso porque são constantes as mudanças na legislação, que geram adaptações e desenvolvimentos, e a evolução dos negócios, fruto da otimização dos processos e do lançamento de produtos”, justifica o CIO, Wagner Coppede. A maior parte dos recursos financeiros destinados à tecnologia na companhia automotiva vai para os equipamentos: data center, desktops e serviços de rede consomem 85% do montante. 

Os principais investimentos dessas empresas seguem uma disposição registrada pelo estudo. Entre as pesquisadas, quando o assunto são os gastos com hardware e software, espera-se que o ERP abocanhe a maior parte dos recursos (14,5%), mantendo-se como o sistema que exige mais investimento nas empresas nacionais. Outras tecnologias que devem ter participação relevante no orçamento são as de telecomunicações (9%), servidores (7,3%), computadores, incluindo PCs, notebooks, PDAs e tablets (7,1%) e segurança (6,1%). 

Esses cinco primeiros itens – que justificam praticamente metade dos valores movimentados por TI –, em geral, não trazem diferencial estratégico e por isso confirmam, em parte, a forma como as próprias empresas definem seu comportamento de adoção de novas tecnologias. Os executivos brasileiros evitam os extremos: apenas 5% acreditam que seu comportamento seja cauteloso e 16% se consideram agressivas. Ou seja, a maior parte prefere classificar suas empresas como de comportamento normal (35%) ou entre agressiva e normal (33%). “É necessário questionar se essa é a forma como elas são ou a maneira como querem ser vistas pelo mercado”, aponta Roberto Carlos Mayer, diretor da MBI

“Os investimentos e custeios da área estão tão fatiados que não temos nada de destaque. As tecnologias competem de igual para igual, praticamente”, comenta Renato Cuoco, vice-presidente executivo de recursos operacionais do Banco Itaú. O executivo caracteriza sua área como agressiva em alguns aspectos – principalmente naqueles voltados à pesquisa sobre as novidades de mercado – e cautelosa em outros, uma vez que uma instituição financeira está calcada na solidez. Ainda que os investimentos estejam equiparados, Cuoco afirma que segurança e otimização de processos são os atuais pontos de atenção da instituição. O que não foge muito ao panorama acima exposto. 

Mas o banco não se encaixa nos parâmetros da pesquisa quando o assunto é sua equipe de TI. Para atender 40 mil funcionários, a instituição possui 2 mil profissionais próprios e somente 300 são terceirizados. Dentre as empresas consultadas por IWB, os funcionários terceirizados continuam sendo a categoria com mais representantes dentro das áreas de tecnologia, com média de 47 pessoas, mesmo com a diminuição em relação ao ano passado, quando havia 63, em média. A redução nos times de tecnologia aconteceu em todas as posições. Havia em média 211 profissionais em TI nas corporações, em 2002. Neste ano, são 149 pessoas. Os analistas são os de maior presença, dentre os funcionários internos, com média de 44. Mesmo a média de diretores caiu de três para duas pessoas. “Afirmo uma coisa há dez anos: aumentando o nível de informatização, os gastos e investimentos também seguem a curva de crescimento. Em TI não há ganho de escala, como na indústria”, alega Fernando Meirelles, diretor da Escola de Administração de Empresa de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

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