Não pense que este artigo entrou na seção errada: o tema dele não é saúde pública! O texto analisa a maneira como alguns países reagem em momentos de crise.


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Graças ao esforço voluntário que desenvolvi nos últimos quinze anos nas associações empresariais da área de Tecnologia da Informação, por meio das quais atuamos intensamente para inserir o Brasil no cenário global (o que redundou, por exemplo, na realização do Congresso Mundial de TI em outubro deste ano no nosso país), tive o privilégio de observar momentos de éxito e momentos de crise em diversos países.

Em particular, a estagnação enfrentada pela União Européia a partir de 2008, se converteu em crise econômica em vários países do Sul da Europa. Em particular, Espanha e Portugal, que são as ‘pátrias mãe’ da América Latina e em tese possuem as culturas mais próximas das nossas, passaram (e ainda passam, parcialmente) por um período de intensas turbulências.

Entretanto, as formas de lidar com a crise não foram homogêneas na Espanha e em Portugal. Uma comparação entre Espanha e Portugal é favorável à Espanha em muitos aspectos: a população da Espanha é pouco mais de quatro vezes maior que a de Portugal, a economia espanhola leva vantagem ainda maior (porque a renda per capita na Espanha é da ordem de 105% da média europeia, enquanto a portuguesa se situa próxima a 80%).

Em 2009, a dívida pública em Portugal se situava em 75% do PIB, enquanto a da Espanha estava ao redor dos 55%. A taxa de desemprego, porém, que era de 9% em Portugal, estava em 18% na Espanha.

Qual destes dois países superou a crise mais rapidamente? Mesmo com essa desvantagem numérica aparente, Portugal reagiu de forma muito mais rápida que a Espanha: Portugal antecipou as datas de pagamento dos empréstimos internacionais negociados no momento de crise (p.ex. com o FMI), voltando à quase normalidade já em 2013. Em 2015 a economia espanhola saiu de uma longa recessão, mas os espanhóis continuam a viver uma percepção de crise.

Mesmo contando, em tese, com maiores recursos, a crise espanhola foi mais profunda que a portuguesa em função do despreparo psicológico para lidar com uma situação como essa. Desde o fim da ditadura de Franco em 1980, seguida da redemocratização e integração na União Européia, a Espanha passou por quase três décadas de crescimento econômico continuado. Assim, apenas indivíduos com cinquenta anos ou mais possuem ainda lembranças claras de outra situação econômica. Já em Portugal, nunca houve um período tão longo de bonança continuada.

Apesar de sermos no Brasil herdeiros da cultura lusitana, tenho a impressão de que estamos atravessando, na atual crise, um desânimo generalizado semelhante ao que se implantou na Espanha: desde as primeiras reformas de 1993 que levaram ao Plano Real, o Brasil não enfrentou nenhuma crise maior, que afetasse toda a população. Em função disso, todos os cidadãos nascidos desde 1975 não possuem registro mental de situação de crise econômica, hiperinflação e outras graves dificuldades econômicas (você lembra, por exemplo, do sequestro de contas correntes do governo Collor?). Mais, essa população de até 40 anos conforma a maioria absoluta da população brasileira, ainda preponderamente jovem.

Casos de éxito econômico nos países vizinhos do Brasil, que possam servir de inspiração para nós, são praticamente desconhecidos pela população em geral: pergunte por ai quem sabe quais são os países membros da Aliança do Pacífico, por exemplo. Resta-nos, portanto, buscar inspiração na nossa pátria-mãe, arregaçar as mangas e trabalhar mais intensamente para superar a situação, sem buscar qualquer ‘bode expiatório’ (que vira culpado, mas não soluciona o problema). Não podemos permitir que a ‘nova febre espanhola’ arrase a nossa consciência coletiva e prolongue a crise de forma desnecessária.


Publicado originalmente em
http://itforum365.com.br/blogs/post/113753/nova-febre-espanhola-no-brasil