Enquanto inúmeros países usam a TI para se alavancar, nas terras tupiniquins...


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O título deste artigo parafraseia o filme “Querida, encolhi as crianças”, lançado pela Disney em fins de 1989, inspirado nas mais recentes medidas de ‘apoio’ do desenvolvimento da TI no Brasil.

Para quem não assistiu o filme (se assistiu, pule este parágrafo!), a história do filme tem como personagem principal um ‘cientista maluco’, que inventa uma máquina eletromagnética para encolher objetos, em casa. Quando finalmente consegue fazer a máquina funcionar, ele se esquece de avisar sua família. E a máquina é acionada acidentalmente quando seus filhos jogam um taco de baseball pela janela: assim a máquina acaba encolhendo os filhos dele a uma altura de poucos milímetros! A partir daí, eles tem que enfrentar ‘perigos terríveis’ no jardim de casa – o irrigador parece um furacão, o cortador de grama uma máquina infernal, as abelhas parecem aviões-bombardeiros, entre outras cenas cómico-dramáticas.

A inspiração para esta analogia surgiu ao termos conhecimento de um programa de apoio à criação de parques tecnológicos, lançado recentemente pelo Ministério das Comunicações. Batizado de “Usinas Digitais” (veja http://www.mc.gov.br/sala-de-imprensa/todas-as-noticias/conteudos-digitais/36451-ministerio-das-comunicacoes-lanca-programa-usinas-digitais-com-investimento-de-r-8-milhoes), ele visa “incentivar a inovação, fomentar a produção de conteúdos digitais criativos e estimular economias regionais com a criação de parques tecnológicos e arranjos produtivos locais (APLs)”.

O volume total de verbas do programa, de oito milhões de reais, “estruturar centros de produção e pós-produção, como estúdios de cinema, televisão e motion-capture e áudio, render farms de alta capacidade, laboratórios de aplicativos e instalações de pesquisa e desenvolvimento de software”.

Segundo o ministro, este programa “estimula toda a indústria brasileira de conteúdos digitais, dando os instrumentos para que ela dê um salto tecnológico e se transforme em referência no nosso país”.

Se apenas oito milhões de reais tem essa capacidade de transformar o país, por que esperamos tanto tempo para lançar uma iniciativa assim? Do outro lado, se o país já possui centenas de parques tecnológicos, apoiar dois teria esse potencial transformador? Falando sério: oito milhões de reais para um programa federal brasileiro é uma versão ‘encolhida’ do que realmente deveríamos ter.

A máquina do filme, infelizmente, funciona cada vez melhor nas mãos do governo federal: outro programa que tem tamanho muito reduzido em relação ao tamanho do país, e que já está em operação há alguns anos é o programa “Startup Brasil”, que já apoiou 183 empresas (http://startupbrasil.org.br/).

Comparando este programa com o “Startup Chile” (http://www.startupchile.org/), que foi citado como inspiração no lançamento do programa brasileiro: este programa já apoiou mais de mil empresas (seis vezes mais que o brasileiro), sendo que a economia do Chile é aproximadamente um décimo da brasileira em tamanho – nosso programa deveria ser sessenta vezes maior. Voltando ao filme, nossas crianças-startups também foram encolhidas!

Torcemos sinceramente que o Poder Executivo acorde para o poder transformador que a TI possui – e que vem sendo usada em outros países como estratégia de Estado, passando de governo para governo – antes que toda nossa capacidade local termine ‘encolhida’.

 

P.S.: como se o título deste artigo, escrito há poucos dias, na véspera de sua publicação o Governo Federal revogou todas as políticas de barateamento de PCs, tablets e smartphones em operação. Como resultado disso, teremos aumento de preços, menor uso da TI e, possivelmente, espaço para os contrabandistas.


Publicado originalmente em
http://comunidade.itforum365.com.br/secure/blog/113678