Existe outro jogo global, também centenário, no qual o Brasil perde atualmente de 102 a 0 da Alemanha


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A Copa da FIFA 2014, encerrada no domingo passado, desperta agora um árduo debate baseada na avaliação dos resultados. Desde os fatos que rolaram com a bola, passando pela experiência de receber visitantes do mundo todo, até o impacto na política partidária e nas eleições de outubro próximo, estamos vendo inúmeras contribuições surgindo: o envolvimento nesse processo de avaliação é certamente positivo para o futuro do país.

Desde a confirmação da realização da Copa no Brasil, diversos avanços tecnológicos foram prometidos: o trem-bala ligando as duas maiores metrópoles do país e os portais na Web para fazer com que os turistas estrangeiros fiquem no país por mais tempo (antes e depois da Copa), continuam sendo sonhos.

A tecnologia de mobilidade urbana transformou-se num pesadelo: a necessidade de decretação de feriados nas cidades-sede nos dias de jogos, combinada com as vítimas fatais de acidentes inadmissíveis em viadutos comprovam isso.

Os sistemas de comunicação nos estádios da Copa funcionaram bem: entretanto, a solução tecnológica adotada para isso foi baseada na instalação de antenas temporárias de comunicação ao redor das arenas, já que estas não foram planejadas para essa demanda.

A infraestrutura aeroportuária não gerou caos e nenhuma seleção perdeu um jogo por WO, mesmo tendo que viajar longas distâncias pelo país. O principal motivo para este fato foi o movimento de viagens a negócios no período da Copa: ele caiu praticamente a zero.

O impacto dessa decisão das empresas (do país e do Exterior) também foi sentido na rede hoteleira: ao longo de toda a Copa, praticamente não houve feiras nem eventos empresariais, de nenhum segmento.

Mais, a própria ocupação da rede hoteleira ficou abaixo do esperado: por meio do site da própria FIFA era possível obter hospedagem em São Paulo, em qualquer um dos quinze hotéis por ela credenciados, para o mesmo dia, ao longo de toda a Copa.

Esses custos ocultos serão mais bem avaliados por economistas, mas não posso deixar de revelar a conta referente ao feriado em São Paulo, no dia da abertura da Copa: a paralisação da cidade (que responde por 11% do PIB do país) por um dia, custou 1/300 x 11% = 0,037% do PIB. Isso equivale a cerca de 1,7 bilhões de reais perdidos apenas nesse dia – que precisam ser contrastados com os dados da Prefeitura local, que afirma que os turistas deixaram um bilhão de reais na cidade ao longo de toda a Copa.

Outro fato curioso diz respeito à torcida organizada da Holanda: na sua maioria retornaram ao seu país antes dos jogos semifinais, em função dos altos custos: uma empresa holandesa que organiza acampamentos para os torcedores já há várias Copas, estava cobrando diárias de 80 Euros aqui no Brasil (e fechou sua operação antes dos jogos semifinais).

Ainda, é impossível me abster de comentar o que ocorreu no campo de jogo propriamente dito. Olhando para o conjunto dos jogos, me parece que o futebol se assemelha cada vez mais com a Formula 1: a potência dos motores (forma física) e a estratégia de corrida (tática de jogo) impactam muito mais os resultados do que o talento dos pilotos (jogadores). Até mesmo jogadores considerados excepcionalmente talentosos foram anulados pelo preparo físico e as estratégias corretas de seus adversários “sem tradição”. Isso talvez explica por quê as seleções da Argélia e de Gana deram muito mais trabalho aos campeões mundiais, do que a seleção brasileira.

Aliás, na entrevista do nosso treinador, após a derrota humilhante para a Alemanha, chamou-me a atenção ele ter dito que tomou suas decisões baseadas nas informações de seus “olheiros” – uma tecnologia certamente ultrapassada. Do lado alemão houve uso intenso da tecnologia da informação para mapear todos os adversários, de forma detalhada, com base em softwares que analisam vídeos. A mesma tecnologia ainda foi usada para treinar o time alemão.

Concluo, portanto, em primeiro lugar, que o prometido legado tecnológico da Copa praticamente virou pó.

Em segundo lugar, a tecnologia impactou o futebol no mundo globalizado. Nossa seleção ainda não começou sequer o processo de avaliação de qual tecnologia deve adotar.

Terceiro e último, espero que aprendamos rapidamente com estas lições, para evitar que goleadas como as do futebol nos sacudam em outras áreas da vida do país, mais vitais para nosso futuro.

Existe outro jogo global, também centenário, no qual o Brasil perde atualmente de 102 a 0 da Alemanha (essa é a quantidade de prêmios Nobel conquistada por ambos países), embora esta goleada ainda não comova a maioria.


Publicado originalmente em
http://www.itforum365.com.br/blogs/post/113335/licoes-tecnologicas-da-copa-do-mundo