O “tigre celta” virou “gato de mendigo”: o ministro irlandês das Empresas, Batt O'Keeffe, afirmou há algumas semanas que "a soberania do nosso país foi conquistada a muito custo e o governo não abrirá mão dela em favor de ninguém". Duas semanas depois dessas declarações, a Irlanda obteve um empréstimo de mais de 80 bilhões de euros junto ao Banco Central Europeu.

A Irlanda se tornou um país independente somente em 1919 (até então era parte do Reino Unido). A parte norte da ilha, conhecida como Irlanda do Norte, continua sob domínio britânico: as guerras religiosas só foram pacificadas nesse território há poucos anos.

Desde a sua independência política até os anos 70, a Irlanda era considerada um país periférico da Europa, com uma economia baseada na agricultura. Mas, no começo dos anos 80, foi iniciada uma estratégia de desenvolvimento econômico, baseada em incentivos fiscais para empresas multinacionais se instalarem no país, com um foco especial na área de TI.

Adicionalmente, a adesão da Irlanda à União Européia lhe permitiu ter acesso aos fundos de desenvolvimento que também beneficiaram países como Portugal, Espanha e Grécia.

Nesse período, a Irlanda se tornou um player importante na produção de software (p.ex. com a maior fábrica de CDs e DVDs da Microsoft no mundo), nos serviços de call-center, e de forma incipiente, começou a gerar uma indústria local de software. Esse ciclo de prosperidade lhe valeu, em comparação com os ‘tigres asiáticos’, o apelido de ‘tigre celta’.

Entretanto, a dependência irlandesa da produção britânica de muitos bens continuou, e perdura até hoje: o Reino Unido exporta mais para a Irlanda do que para o Brasil ou a Russia.

Quando a crise global de fins de 2008 chegou, a economia irlandesa entrou num ciclo negativo, que originou a situação atual: a forte dependência das empresas multinacionais, para a manutenção do crescimento de seu PIB, se tornou um ponto fraco. O tigre virou um gatinho, seu dono teve que pedir ‘esmola’ ao Banco Central Europeu.

No Brasil, essa dependência do capital multi-nacional é muito menor, e restrita a alguns setores da economia (p.ex. automobilístico). A experiência irlandesa ensina que não devemos incentivar essa dependência, se não quisermos ‘miar’.

Então precisamos decidir logo: qual deve ser o animal escolhido como mascote para o Brasil? Antes que um mágico de plantão transforme tigre em gato!