As empresas indianas de prestação de serviços em TI iniciaram sua expansão global para além de mercados de nicho a partir do final dos anos 90, coincidindo com o chamado Bug do Milênio. Entretanto, o processo de desenvolvimento da indústria de TI na Índia foi resultado de um processo planejado em meados da década de 70.

Naquela época, a Índia não dispunha de capital humano qualificado, nem de escolas ou universidades capazes de formá-lo. Assim, o primeiro passo da estratégia indiana se baseou em subsidiar os estudos de muitos indianos em universidades do Primeiro Mundo. Desde os inícios dos anos 80, tornou-se comum ver papers científicos, principalmente no cenário da ciência da computação, escritos ou co-assinados por autores indianos.

Esta primeira ‘onda’ de profissionais especializados gerou dois efeitos positivos para a Índia. Em primeiro lugar, a maioria destes profissionais retornou para a Índia, transformando-se em professores e multiplicadores do conhecimento que detinham. A partir do início dos anos 90, as universidades indianas começaram a crescer significativamente, tanto em número de professores quanto de alunos, gerando assim o capital humano necessário para se lançar, poucos anos depois, no mercado global.

O segundo efeito é resultante daquela parte dos indianos que optaram por não retornar a seu país: eles optaram por se estabelecer em definitivo nos Estados Unidos ou na Europa. Entretanto, sendo indianos de nascimento, com o óbvio conhecimento da sua cultura natal acrescida da cultura dos países ocidentais que os receberam, eles se transformaram em pontes entre as duas culturas. É comum, principalmente quando observamos empresas indianas que não fazem parte do grupo das 20 maiores daquele país, descobrir que os líderes comerciais das empresas, dirigindo os escritórios de vendas no Primeiro Mundo, pertencem à mesma família dos dirigentes técnicos que coordenam as operações na Índia. Desta forma, nestes países se criaram laços transnacionais, que beneficiaram a entrada das empresas indianas nestes países.

Quando olhamos para o Brasil, constatamos que este efeito não ocorreu: as universidades brasileiras não atraíram estudantes indianos (ao menos não em número significativo), de forma que o número de profissionais indianos radicados no país não foi suficiente para gerar ‘massa crítica’ no mesmo modelo adotado no Primeiro Mundo.

Entretanto, as principais empresas indianas de serviços de TI estão presentes no Brasil de hoje. Elas se estabeleceram no país nos últimos anos por meio de contratos negociados nos países do Primeiro Mundo, mas que contemplam o compromisso de atender os clientes a nível global. Assim, a entrada destas empresas se deu sem qualquer esforço comercial no Brasil. As equipes foram estruturadas inicialmente mediante a absorção da mão-de-obra dos próprios clientes globais que contrataram os serviços de outsourcing.

Desta forma, o volume de serviços e de profissionais contratados ganhou um certo volume rapidamente. Mas, por outro lado, as empresas indianas foram incapazes de, a partir desta ‘cabeça de ponte’, expandir as suas operações no país. Fora do universo das empresas globais que os contrataram no Primeiro Mundo, a comunidade de TI local praticamente desconhece a presença das empresas indianas no país.

Diversas atitudes contribuem para este fato: por exemplo, as empresas indianas instaladas no Brasil, mesmo transcorridos já vários anos de sua instalação, praticamente não desenvolvem atividades de marketing: suas marcas não são conhecidas pela maioria dos profissionais de TI nacionais.

Outra atitude das empresas indianas que contribui para esta situação é a sua atuação nas entidades de classe do setor. Na Índia, a associação empresarial do setor de TI, chamada Nasscom, possui significativa capacidade de agregação e força política. As filiais brasileiras das empresas indianas se associaram, na sua maioria, a entidades de classe semelhantes no Brasil. Entretanto, sua participação tem sido bastante ‘apagada’.

Em resumo, podemos afirmar que a participação das empresas indianas no mercado brasileiro de serviços de TI ainda é modesto. Sua participação no mercado poderia ser mais significativa ou agressiva, tanto no que diz respeito à disputa do mercado interno, quanto à utilização do Brasil como uma fonte alternativa de produção de serviços a serem entregues em outros países.

Aparentemente, os fracos elos culturais existentes entre os dois países se refletem na prática do dia-a-dia dos negócios, fazendo com que o resultado final seja positivo, mas muito aquém do que seria possível.

Num cenário globalizado, certamente deveriamos avaliar melhor os benefícios de uma cooperação mais intensa entre as duas culturas. Esta vontade já faz parte do discursos político, em alguns casos, por parte dos governos dos dois países, mas os efeitos práticos disto, no mundo dos negócios, ainda não “esquentou”.

Comparativamente, as empresas de TI oriundas dos países do mundo desenvolvido, ocupam uma posição muito mais destacado em termos de participação no mercado nacional. Cabe então a pergunta: será que se trata apenas de uma questão cultural? Ou há outros motivos para a aparente “timidez” com que as empresas indianas tem se comportado no país?

Caderno completo do Jornal do Brasil, especial sobre a Índia, em formato .pdf:

Página 1
2,21 Mb
Página 2
528 Kb
Página 3
775 Kb
Página 4
665 Kb
Página 5
847 Kb
Página 8
550 Kb
Página 10
437 Kb
Página 11
1,41 Mb
Página 12
1,54 Mb

 


Faça aqui o download do caderno especial sobre a Índia,
publicado pelo jornal Gazeta Mercantil na mesma data
(arquivo em formato .pdf, 1,19 Mb, 5 páginas)