Qual o impacto da Web 2.0 sobre as eleições, em particular, e sobre a política, em geral? Quais as lições do fenômeno Barack Obama, candidato democrata a presidência dos Estados Unidos?

Até três anos atrás, Barack Obama não era detentor, nem nunca tinha sido, de qualquer cargo político. Foi eleito senador ‘de primeira viagem’ pelo estado de Illinois em 2005. Seu sucesso nas primárias do partido democrata, surpreendeu a máquina partidária tradicional, dentro da qual o ‘clã’ Clinton pretendia manter suas posições.

Qual a grande cartada de Barack Obama? Nada menos que o uso inteligente da tecnologia, notadamente as chamadas ‘mídias sociais’ (conhecidas também como Web 2.0), para atrair o suporte necessário a sua candidatura.

A primeira conclusão então é que um potencial candidato pode ficar invisível "na tela do radar" político tradicional até que seja tarde demais para que seus concorrentes possam reagir. Transferindo para a realidade brasileira, é muito provável que um ou mais fortes candidatos à eleição presidencial de 2010 nem estejam sendo considerados como candidatos, hoje, pelos partidos.

A segunda conclusão é que deve cair por terra, definitivamente, a crença da maioria dos políticos na Internet apenas como uma mídia para se comunicar e influenciar o voto das classes A e B (que no Brasil não possuem volume de votos suficientes para decidir uma eleição majoritária). Há quarenta milhões de usuários de Internet, no Brasil de hoje. E esse número continua crescendo.

Resulta então que a Internet está de fato mudando a dinâmica das eleições. Não é preciso atingirmos a utopia da democracia participativa (como era na antiga Atenas), com todos os cidadãos participando de todas as decisões (embora já seja tecnicamente viável), para entender que a tecnologia propicia uma mudança significativa no jogo de forças políticas.

Nas eleições municipais de 2008, certamente haverá surpresas. Mas podemos afirmar que as eleições majoritárias de 2010 terá uma dinâmica completamente diferente das de 2006, 2002 e anteriores.

A grande mudança que as mídias sociais propiciam é a possibilidade de desenvolver campanhas ‘um para um’, ou seja, cada eleitor pode ser atingido e trabalhado na sua individualidade, a partir da sua "tribo digital". Esse "tratamento pessoal" em massa não foi possível nunca antes. O eleitor não estará apenas escolhendo um candidato, estará contribuindo de forma efetiva para si mesmo enquanto cidadão. Essa é uma mudança gigantesca, que poucos políticos estão percebendo.

Podemos afirmar que a mudança do processo político-eleitoral será tão ou mais profunda que as mudanças introduzidas pela televisão, nos últimos 50 anos (e hoje amplamente dominadas pelos políticos e seus ‘marqueteiros’).

O papel da Internet nas campanhas mais bem sucedidas deixará de ser apenas a de mais um meio de comunicação. Não se tratará mais de ampliar a divulgação da campanha pela Internet. Mais, aqueles candidatos que usarem a Internet apenas para divulgar seus filmes promocionais no YouTube, montar um site com o programa da campanha (pedindo a participação do público), criar uma comunidade ou tema no Orkut, ou abrir (ou contratar) blogs para se divulgarem, correm o enorme risco de fornecerem "munição" para serem bombardeados pela mídia social.

É preciso compreender que a mídia social não é apenas uma forma de divulgação, mas um sério compromisso com os grupos, as idéias e, principalmente, a consciência de seus eleitores. Isso não pode ser de "mentirinha": só funciona se tiver legitimidade. Esta é a razão pela qual o perfil dos candidatos vai mudar tanto. E com isso a política também... boa notícia!