Durante algum tempo, chegou-se a cogitar inclusive da criação de um padrão brasileiro de transmissão de sinais de TV digital. Esta idéia, entretanto, acabou sendo abandonada em favor da adoção de um padrão já existente, por diversas razões (uma delas, a de baratear o custo dos equipamentos em função da existência de um mercado maior).

Foi assim que o governo brasileiro acabou optando, em meados de 2006, pelo padrão japonês de transmissão de TV digital. Considerando apenas a transmissão dos programas (como na TV tradicional, sem recursos de interatividade), a adoção do padrão japonês é completa: no final de 2007, uma missão comercial de empresas da Coréia do Sul trouxe equipamentos desenvolvidos para o mercado japonês, que funcionaram perfeitamente com o sinal disponível em São Paulo.

Como parte da opção pelo padrão japonês, foi celebrado na época um acordo com o governo japonês, que previa algumas contra-partidas ao Brasil. Além de apoio técnico, este acordo previa a instalação de uma indústria de semicondutores no Brasil, destinada a produzir os chips necessários à fabricação dos receptores da TV Digital.

Infelizmente, cabe-nos questionar os moldes deste “acordo”: até o momento não houve qualquer movimentação concreta por parte dos japoneses para fazer os investimentos necessários no Brasil. Mais, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, aproveitou-se de reuniões com diplomatas japoneses em janeiro (abertura do Ano do Intercâmbio Brasil-Japão, comemorando os cem anos da imigração japonesa ao Brasil) para cobrar do governo japonês seu compromisso de instalar uma indústria de semicondutores no Brasil. O questionamento que fazemos é o seguinte: que tipo de acordo foi selado entre os governos do Brasil e do Japão, que garantiu ao Japão o uso de seu padrão, em troca de meras promessas? Disse literalmente Amorim: "Confiamos que a fábrica de semicondutores possa ser instalada no Brasil e venha a completar a nossa parceria estratégica".

Enquanto isso, os componentes utilizados continuam sendo importados, o que encarece o produto final, dificultando a difusão da TV Digital. E o déficit comercial no setor de tecnologia para o país aumenta.

Por enquanto, as boas intenções iniciais do governo federal se revelaram, na prática, apenas intenções.

Na próxima coluna abordarei outros aspectos da implantação da TV Digital.