Há muitos anos, o Brasil vem perseguindo o sonho de se transformar num pólo de exportação de software e serviços de Tecnologia da Informação. Desde o início dos anos 90, com a criação do (na época, projeto) Softex, a ambição de tornar o Brasil um exportador de TI foi alvo de diversas iniciativas.

O uso da TI como estratégia de desenvolvimento econômico vêm sendo defendida pelo Banco Mundial desde a mesma época. Alguns países se transformaram de economias de base agrícola em economias baseadas em serviços (praticamente pulando a fase industrial), como é o caso da Irlanda.

Outros, como a Índia, estão usando a TI sistematicamente, há três décadas, como alavanca de desenvolvimento social de uma população gigantesca. Não apenas gera dezenas de bilhões de dólares em exportação de serviços, como também gera milhões de empregos. Desde o final dos anos 70 até o final dos anos 90, a Índia executou um longo plano de preparação, que se transformou no ‘case’ de sucesso que é hoje na mesma época do ‘bug do milênio’.

Enquanto isso, depois de quase duas décadas de tentativas de criação de uma estratégia nacional no Brasil, podemos prever que as exportações de serviços de TI devem ultrapassar a marca de um bilhão de dólares em 2008. Mas a estratégia ainda está em elaboração: o governo federal vem trabalhando há mais de um ano na elaboração de uma ‘Estratégia Nacional de TICs’... a velocidade de operacionalização das iniciativas a nível político chega a ser assustador: basta pensarmos na total paralisação do Congresso Nacional, para a votação da emenda constitucional de prorrogação da CPMF no Senado. O Poder Executivo optou por adiar o encaminhamento de qualquer nova proposta ao Congresso (incluindo ai a Reforma Tributária e a Política Industrial do segundo mandato presidencial, cuja relevância para o país é inegável). Mais, orientou sua bancada na Câmara dos Deputados a suspender a votação de qualquer matéria para evitar a entrada de novas demandas no Senado: em outras palavras, o país virou refém da votação da CPMF. E os argumentos em seu favor só reforçam a percepção de que se trata de uma ‘extorsão’.

O resultado prático desta situação é uma paralisação objetiva de ações de governo. Enquanto isso, as oportunidades vão sendo perdidas: dezenas de milhares de empregos de alto nível de qualificação tecnológica estão deixando de ser criados no país, em função destas dificuldades.

A tecnologia é a mola propulsora da globalização, e por esta mesma razão é a atividade a sofrer suas conseqüências em primeiro lugar: a transferência de uma fábrica tradicional, com máquinas industriais, de um país para outro, é um processo lento e caro. Já a transferência da execução de serviços de TI de um país para outro é, desde que no país de destino existam recursos humanos qualificados e disponíveis, praticamente imediata e a custo zero.

As grandes multinacionais de serviços de TI já usam esta lógica há algum tempo para maximizar seus resultados. Por exemplo, a IBM não possui mais unidades de serviços em cada país onde os comercializa. No lugar disso, está concentrando a execução dos serviços em poucos e grandes centros mundiais. Ao mesmo tempo, estas grandes corporações multinacionais não querem criar a dependência de um único país, porque isto gera um risco elevado no caso de problemas políticos (p.ex. guerras) ou econômico-financeiros (p.ex. oscilações cambiais).

Atualmente a Índia é o país predominante na escolha destas empresas. A IBM possui 55 mil profissionais contratados na Índia. Mas o Brasil entrou no radar destas empresas há alguns anos. No Brasil, a IBM mantêm mais de 6 mil profissionais, apenas para a prestação de serviços.

Outras empresas globais como EDS e Accenture, vivem situações semelhantes. Entretanto, elas estão encontrando dificuldades para ampliar suas bases brasileiras: a disponibilidade de mão-de-obra é citada freqüentemente, mas existe uma dificuldade estrutural no marco regulatório para o setor. Os custos da contratação de pessoal são elevados, em comparação com outros países. E a terceirização é sujeita a tributação em cascata.

Uma ‘feliz’ coincidência, que se dá pela primeira vez em décadas, é que esta dificuldade está afetando o desempenho das empresas nacionais de TI, tanto grandes, quanto médias e pequenas. É por esta razão que, pela primeira vez, está em andamento um diálogo entre estes vários segmentos, defendendo interesses em comum.

Mais, o diagnóstico da situação também tem vários pontos em comum. Por exemplo, é fato aceito por todos que o nível de informação disponível sobre o setor no país é insuficiente para implementar e acompanhar qualquer estratégia: Quantos profissionais de TI temos no país? Qual o valor do mercado total de serviços de TI? Quanto exportamos? Perguntas como estas não podem depender de estimativas de profissionais experientes, mas devem ser monitoradas por meio de metodologia precisa.

Essa consciência também existe hoje no Poder Executivo. O recém lançado plano de ação 2007-2010 do Ministério da Ciência e Tecnologia também cita esta preocupação de forma explícita. Mais ainda, cita a necessidade de desoneração da folha de pagamento das empresas do setor para manter sua competitividade.

Temos a obrigação, portanto, de aproveitar esta conjunção de percepções e interesses para realizar o potencial de nosso país nesta área, antes que a janela de oportunidade se feche.