A não ser que você seja leitor assíduo desta coluna e tenha excelente memória, deve estar estranhando a ‘Parte II’ no título. A Parte I deste artigo foi escrita em maio de 2002, por ocasião da compra da dinamarquesa Navision pela Microsoft. Essa compra representou o ‘gran finale’ de uma seqüência de compra de fornecedores e aplicativos de ERP pela Microsoft (que incluiu também as empresas americanas Solomon e Great Plains).

Atualmente, a Microsoft comercializa toda sua família de aplicativos ERP sob a marca Dynamics. A mais recente campanha publicitária lançada no Brasil inclui a mensagem “250.000 empresas já usam”. Como no Brasil todas as empresas de ERP juntas possuem perto de 40 mil clientes, é certo que o número da Microsoft inclui clientes no Exterior, mas não diz aonde.

Na época da compra da Navision, os press-releases informavam que só a Navision já tinha 500 mil clientes. Cabe então perguntar: a Microsoft perdeu metade da base instalada da Navision? Diversas fontes citam que a continuidade da presença da Microsoft no mercado de ERP estaria sendo reavaliada. Por enquanto, as subsidiárias desmentem (ou ignoram) isto.

Mas se trata de um sério problema para a Microsoft: entre a compra e os esforços que se seguiram foram investidos cerca de oito bilhões de dólares, sem atingir o market share esperado. Decorridos seis anos da entrada da Microsoft no mercado de planilhas de cálculo, de processadores de texto ou de softwares de rede, o market share atingido era bem maior.

Adicionalmente, a presença da Microsoft no mercado de ERP criou problemas de relacionamento com várias empresas parceiras, que atuavam já com ERP antes da Microsoft (o exemplo da Microsiga/Totvs no Brasil encontra paralelo em diversos outros mercados). É preciso lembrar que foram justamente estas empresas as responsáveis, em grande parte, pelo sucesso do SQL Server nos anos 90. Na época, o alvo comum era a liderança da Oracle (que vendia seu banco de dados a preços muito superiores – além de também atuar no mercado de ERP). Hoje, estas empresas migraram, em muitos casos, para a comercialização de bancos de dados concorrentes (alguns executivos falam abertamente em traição).

Finalmente, do lado técnico, a unificação dos vários produtos com base no chamado Microsoft Business Framework, também apresenta problemas sérios. Prometido inicialmente para 2004, o MBF foi adiado várias vezes. E continua no nível da promessa.

Enquanto aguardamos uma definição vinda da matriz, basta observar o ‘rei’: os clientes finais. O tiroteio (entre a Microsoft e seus antigos parceiros) gerou desconfiança no mercado.