Avaliar o desempenho da indústria de software no Brasil com números objetivos representa um desafio, dado que a absoluta maioria das empresas é de capital fechado. Diante dessa realidade, tomei-me a liberdade de obter valores aproximados, baseado em diversos estudos desse mercado, desenvolvidos pela minha empresa (MBI) ao longo dos últimos anos.

Considerando, para fins deste artigo, apenas as empresas para as quais conseguimos obter informação, simultaneamente, sobre o número de profissionais de desenvolvimento de software que atuam nas empresas, e sobre o faturamento (esta pergunta costuma ser apresentada em faixas de valores, de forma a obter respostas aproximadas das empresas), obtive uma amostra de cerca de novecentas e cinqüenta empresas brasileiras de software. A título de 'benchmark', procurei também a respeito de informações semelhantes disponíveis para empresas de software nos demais países da América Latina. Cheguei, neste caso, a uma lista de cento e noventa e cinco empresas, espalhadas ao longo da região, desde o México ao Norte, até a Argentina e o Chile ao Sul.

Para avaliar as empresas de alguma forma, optei por construir a proporção entre o faturamento das empresas e o número de desenvolvedores. A escolha deste indicador se deve a que ele resulta numa dispersão muito grande dos valores resultantes, refletindo a estrutura da empresa: empresas focadas na comercialização de softwares como produto atingem, normalmente, valores mais altos do que aquelas que optaram por se concentrar no desenvolvimento de software sob encomenda (uma escolha estratégica de cada empresa).

Empresas com foco em produtos são capazes de alavancar suas vendas (e portanto suas receitas) sem a necessidade de aumentar o número de profissionais de desenvolvimento. Já no caso das empresas focadas no desenvolvimento sob encomenda, o dobro de projetos significa, praticamente, dobrar o tamanho da equipe.

É bem verdade que a grande maioria das empresas não faz uma escolha radical entre um e outro modelo. É justamente a proporção entre um e outro que resulta na grande dispersão de valores resultantes para nosso indicador.

No caso brasileiro, o valor encontrado para o quociente entre o faturamento e o número de desenvolvedores varia entre alguns poucos milhares e alguns poucos milhões de reais. O valor médio das 950 empresas consideradas nesta análise é de 204 mil reais.

Nas empresas do restante da América Latina encontramos valores individuais que variam da mesma forma. Entretanto, o valor médio apurado (com as devidas conversões cambiais) é de 410 mil reais. Em outras palavras, a empresa brasileira média consegue atingir apenas a metade do faturamento por desenvolvedor de software do que a empresa média dos nossos países 'hermanos', revelando a maior concentração no desenvolvimento sob encomenda.