'...se los comen los de afuera': esse é um dos ensinamentos que o 'gaúcho' Martin Fierro da aos seus colegas, num clássico da literatura argentina, que descreve a chamada 'guerra' contra os índios. Na penúltima década do século XIX o exército argentino partiu para tomar as terras dos 'gaúchos' e dos índios, até então donos incontestes do que é hoje a metade Sul daquele país.

Cento e vinte anos mais tarde, umas mil léguas mais a Nordeste, nosso setor de TI, aqui no Brasil, parece não ter aprendido essa lição ainda: exatamente no momento em que a janela de oportunidade da venda de serviços de outsourcing e offshoring no mercado global começa a se fechar, vemos um movimento de desagregação das lideranças do setor como nunca antes visto.

Se você acompanha esta coluna há algum tempo, já sabe que a existência de uma grande variedade de entidades representativas do setor de TI é, na minha opinião, um dos fatores que impedem um avanço maior do Brasil no contexto global. Mas, infelizmente, no último ano assistimos a uma seqüência de eventos que contribuiram ainda mais para a fragmentação e a desinformação sobre o país.

De um lado, vimos a criação de novas entidades (como por exemplo a Brasscom), fragmentando ainda mais a representação de um setor que já conta com ABES, Abranet, Assespro, Softex, Sucesu, etc. etc. Nenhum debate, nenhuma conversa com tantos atores, é capaz de produzir uma conclusão única.

Enquanto o governo federal elegeu o setor de TI como um dos pilares da sua política industrial e definiu uma meta de exportação de dois bilhões de dólares para o setor para o ano que vem (2007), do outro não existe sequer uma metodologia unificada para avaliar o volume nem do mercado interno nem o das exportações.

A complexa e perversa legislação tributária é uma das causas dessa dificuldade, que leva à publicação de números, dependendo da fonte, que variam em mais de cem por cento entre si.

E quando os autores se encontram, se preocupam em saber quem gerou o número correto, que determina a estratégia mais certa. Uma conversa "de surdos". Enquanto isso..."se los comen los de afuera": não só empresas multinacionais do Primeiro Mundo, mas empresas originárias da Índia, da Tailândia e do Vietnam estão colocando seus pés em nossos "pagos".