Nos últimos anos, a indústria brasileira de software foi objeto de comparação com as de vários outros países. A comparação com as empresas da Índia é a que mais chama a atenção: em termos de valores, ambas indústrias são equivalentes; entretanto, 95% ou mais da produção brasileira se destina ao mercado interno, enquanto na Índia a situação se inverte, com mais de 95% sendo destinado à exportação. 

É natural se perguntar então, o que nós brasileiros podemos aproveitar da experiência deles, para tornar nossa indústria de software mais bem sucedida na exportação. Afinal, já há empresas indianas operando até no Brasil. O caso mais noticiado é a "joint-venture" entre a brasileira TBA e a indiana Tata.

O primeiro ponto a observar é que a trajetória indiana iniciou-se silenciosamente há uns vinte anos atrás: milhares de indianos graduados em ciência da computação foram para os Estados Unidos fazer cursos de mestrado e/ou doutorado. Uma vez formados, muitos deles passaram a trabalhar como funcionários das grandes empresas americanas de software (bem conhecidas de nós brasileiros). Há pouco menos de dez anos, os profissionais mais brilhantes e empreendedores retornaram a Índia para fundar suas próprias empresas.

Assim, desde seu início, estas empresas focaram na comercialização de serviços de desenvolvimento sob encomenda para o mercado americano. Eles foram auxiliados não somente pela coincidência da língua (ambos os EUA e a Índia são ex-colônias inglesas), mas pela presença de indianos nos EUA, conhecedores de ambas culturas, que passaram a mediar os negócios junto das empresas americanas.

O principal trunfo das empresas indianas foi, e continua sendo, seu baixo preço. As empresas indianas oferecem hoje a hora de serviço de desenvolvimento na faixa de doze a dezoito dólares.

A capacidade de operar neste nível de preços é resultado da situação econômica e social da Índia. Trata-se de um país com um bilhão de habitantes, dos quais perto da metade vive na miséria ou em economias de subsistência. Da outra metade, apenas um por cento fala, lê e escreve inglês fluentemente: apenas cinco milhões de indivíduos com alto nível educacional, que são a elite do país.

A dependência desta estrutura social e das correntes migratórias de e para os Estados Unidos são elementos chave no sucesso indiano. Suas tentativas de adentrar o mercado europeu ou japonês são muito menos eficazes: a barreira cultural é muito maior.

Traduzindo esta situação para a realidade brasileira, poderíamos transformar as colônias alemãs no Sul, da italiana em São Paulo, dos 'dekasseguis' no Japão e dos mineiros nos Estados Unidos em pontes para a comercialização de produtos e serviços brasileiros. Entretanto, nenhuma destas comunidades possui o mesmo nível de educação acadêmica em ciência de computação quanto os indianos (sendo a colônia alemã de Blumenau e região a que mais se aproxima).

Podemos concluir, portanto, que a transposição direta do modelo indiano para a realidade nacional é muito difícil. Em vez de imitá-los, precisamos encontrar nosso próprio caminho.