Na última coluna regular (dado que comemoramos cinco anos de InformationWeek na edição especial), abordei a chegada dos microprocessadores de 64 bits ao mercado. Ambos o Itanium 2 da Intel quanto o Opteron da AMD têm capacidade de endereçar memória e processar valores de 64 bits a cada instrução.

As CPUs de 64 bits "per se" não constituem uma novidade: arquiteturas como o PowerPC da IBM, entre outras, baseadas em projetos do tipo conhecido como RISC, já estão no mercado há um bom tempo (o que vale também para o Itanium original).

O ponto chave é: para usar todo o potencial destas novas CPUs, é preciso dispormos de software adequado, adaptado especificamente para esta finalidade. Assim como o Windows 3.0 foi o primeiro sistema operacional a tirar proveito por completo dos recursos da CPU 80386 (lançada cinco anos antes e usada até então como uma versão "turbinada" das CPUs anteriores), estamos no limiar de uma nova geração de sistemas para as CPUs de 64 bits.

Ao mesmo tempo, o mercado de software sempre dependeu da inovação em hardware: não seria possível termos interfaces gráficas se as CPUs não tivessem a capacidade de processamento a um preço que permite que tenhamos interfaces gráficas em computadores de mão, telefones celulares e aparelhos de GPS.

Na coluna passada saudei a disputa AMD x Intel como algo saudável para o mercado. Fornecedores de hardware, como a Sun e a Silicon Graphics optaram por produzir equipamentos de 64 bits baseados no Opteron da AMD. O resultado prático é a disponibilização da mesma capacidade de processamento de máquinas várias vezes mais caras.

Do ponto de vista do software, estas máquinas foram equipadas com Solaris e com Linux de 64 bits. Não é de estranhar, portanto, que a Microsoft tenha se concentrado no porte do Windows Server para o Itanium, deixando o Opteron para "depois".

Está em jogo muito mais que a escolha de um sistema operacional. Em função da relação custo vs. performance, a adoção de computadores baseados nestas CPUs é agora apenas uma questão de tempo.

E nesta mudança de plataforma reside a oportunidade de "chacoalhar" as verdades consagradas de mercado: o Windows 3.0, com seu uso intenso da arquitetura de 32 bits do 386, foi o artífice da vitória da Microsoft sobre o OS/2 da IBM.

Em outras palavras, a aparente descontinuidade no mercado de hardware abre oportunidades para mudanças drásticas no mercado de software. Entretanto, é preciso compreender que, da mesma forma que o Opteron está sendo usado como uma oportunidade para o Linux, é possível a criação de hardware inovador (portanto, patenteado e proprietário para dar lucro a seus inventores) que venha a exigir acordos de não divulgação (chamados de NDA – non-disclosure agreement) de detalhes do hardware. Neste caso, o próprio conceito embutido na licença do software livre é incompatível com a necessidade de sigilo do fabricante de hardware (esta é uma das razões de um certo modem ter recebido o nome, no passado, de WinModem).

Podemos estar certos de que nos próximos meses as notícias desta nova batalha pelo mercado vão ser bem interessantes!