Dediquei minhas três últimas colunas a considerações sobre políticas para a área de software. Encerrei o tema colocando a necessidade de permitir que o mercado faça sua livre escolha de fornecedores entre os chamados softwares livres e proprietários.

Coincidência ou não (será que tenho leitores em Brasília?), na primeira semana de fevereiro, aconteceu um fato que passou desapercebido da grande maioria dos profissionais. Até de mim: confesso que também só tomei conhecimento através de e-mails que recebi de alguns leitores desta coluna (obrigado!).

O fato em questão foi uma decisão tomada pelo diretório nacional do partido político que encabeça nosso atual governo federal, o Partido dos Trabalhadores: a informatização dos 5.000 diretórios estaduais e municipais do partido.

As declarações do presidente do partido, deputado José Genoíno, a respeito deixam clara a importância da questão para o PT: "a informatização vai contribuir ainda para ajudar o partido nas próximas eleições municipais. A informatização é o elo decisivo da engenharia política do partido. Os diretórios representam um meio de campo fundamental. Estamos capacitando democraticamente o PT na disputa eleitoral, na defesa do governo do presidente Lula e na defesa da gestão das prefeituras do partido. O PT tem quadros e experiências que precisamos divulgar." Sim, a TI agora também é estratégia na política.

As notícias publicadas dão conta que o PT fez um contrato de leasing com o Banco do Brasil, para comprar cinco mil microcomputadores da HP, cinco mil multifuncionais da Lexmark (equipamentos que servem como impressora, copiadora, scanner e fax ao mesmo tempo) e optou por comprar as licenças de software. O valor destinado às licenças de software foi noticiado como sendo de 1,43 milhões de reais.

A comunidade Linux reprovou a atitude do PT. No site dotlinux.net encontrei comentários como este: "contrasta com o discurso 'vamos parar de enviar dinheiro para o exterior por que é ruim para o povo aqui', quando o discurso é sobre software livre. Parece que quando o interesse é do 'partidão', eles não estão nem aí."

Do outro lado, as empresas nacionais que poderiam ter fornecido o hardware, também reclamaram: por quê privilegiar a compra de multinacionais, com financiamento do Banco do Brasil?

Procurei pela reação do PT a todos os comentários. E a impressão que ficou, foi uma tentativa deliberada de esconder a informação. Me deixe detalhar: ao procurar detalhes sobre a notícia usando o Google, este forneceu um link para a homepage do diretório nacional do PT (http://200.155.6.3/site/index.asp; não sei por quê não usam um domínio), mas ao entrar no site a notícia não estava mais lá, nem na página principal, nem em qualquer outra parte do site.

Ao insistir na busca com palavras chaves da cópia da página armazenada no cache do Google, consegui localizar sites de um vereador de Curitiba e de um deputado estadual gaúcho que ainda mantinham a noticia em destaque em suas páginas.

A impressão que fica é que a decisão do partido foi, além de incoerente com as idéias que defende enquanto governo, capaz de desagradar tanto a "gregos" quanto a "troianos" (enquanto só os "bárbaros do Norte" festejaram). E quando noticiada, optaram por eliminar a notícia.

Vou encerrar fazendo minhas as palavras contidas em outro comentário da comunidade Linux: que decepção!