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Há exatos dez anos, foi criado o programa Softex, com a meta declarada de que o Brasil atingisse dois por cento do mercado mundial de software no ano 2000. O resultado efetivamente obtido não chegou a 5% dessa meta, em sete anos. É simples colocar a culpa nos executores do programa, mas . a meta era realmente utópica (parafraseando meu professor de história da arte: "as utopias são como as estrelas: você se guia por elas, mas nunca será capaz de atingi-las").

De meu ponto de vista, o problema principal é que não houve um processo de discussão aberto para a questão. O programa Softex trocou o "ex" no nome, que era de "exportação" por "excelência", e continuou desenvolvendo suas atividades. A justificativa dada para a mudança é correta: se as empresas não crescerem primeiro no nosso mercado interno, não terão capacidade de exportar (o que exige investimentos relativamente altos, que precisam ser financiados pela própria receita das empresas, já que a grande maioria não dispõe de qualquer tipo de investimento externo).

Um estudo comparativo das indústrias de software do Brasil, China e Índia, coordenado pelo MIT, revelou que o Brasil se diferencia dos seus concorrentes no fato de ser capaz de gerar software que agrega valor para as empresas. Em outras palavras, o software brasileiro não apenas converte regras de negócio em código, mas muitas vezes fornece, através de seu código, novas regras de negócios para as empresas.

Esta situação é completamente diferente da realidade indiana: noventa por cento da produção indiana de software se destina a exportação, mas as equipes na Índia recebem especificações prontas, limitando-se apenas a desenvolver o que foi solicitado. Em alguns casos, os indianos limitam-se a depurar código já existente. É o que no popular chamamos de trabalho de "chinês".

Já na China, a indústria de software está principalmente atrelada à produção de bens de consumo eletroeletrônicos (como celulares e DVDs).

A prova viva destes fatos é que o Brasil é recordista em empresas produtoras do que chamamos de "sistemas": embora pequenas a nível global, nossas maiores empresas nacionais de software produzem sistemas de gestão (Microsiga e Datasul). Entretanto, além delas existem milhares de outras empresas que desenvolvem software na forma de "sistemas": da saúde à hotelaria, do controle do tráfego aéreo ao controle de gado de corte, há sistemas nacionais disponíveis para uma enorme gama de aplicações. Mas, quase todas estas empresas são pequenas, e um número muito pequeno delas conseguiram comercializar seus produtos fora do país.

Voltamos assim ao ponto de partida desta série de colunas: a implementação de uma política nacional de software pressupõe que sejamos capazes de encontrar um consenso de idéias que compatibilize os interesses do governo, das empresas nacionais e das empresas multinacionais que atuam no país. Parece difícil, mas é imprescindível: precisamos de menos associações que representem o setor, mas que sejam mais fortes. Assim, quando o governo convocar representantes da "sociedade" para os conselhos governamentais, não haverá mais discussões entre os representantes da sociedade, deixando assim de desperdiçar uma das poucas chances de influenciar as políticas públicas.

Este consenso precisa ser construído com a ajuda de todos os grupos de interesse, sem radicalismos e com algumas concessões de todas as partes. Acho que uma boa parte deste caminho já foi trilhada: mas isto será assunto da próxima coluna.