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No final de julho de 2003, participei do Encontro Brasileiro de Qualidade e Produtividade em Software, organizado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia. O evento foi patrocinado pela Ericsson e ocorreu no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento desta empresa, em Indaiatuba. A existência deste centro é conseqüência da "Lei de Informática" (que descrevi na coluna anterior).

Como manda o protocolo, o diretor da Ericsson responsável pelo Centro fez uma das palestras iniciais. Chamou muito a minha atenção sua afirmação de que a simples manutenção do incentivo em Pesquisa e Desenvolvimento, propiciado pela Lei de Informática, não garante a continuidade das operações de pesquisa da Ericsson no Brasil. A Ericsson possui 23 centros semelhantes espalhados pelo mundo todo, e para cada novo projeto de pesquisa e desenvolvimento, há uma concorrência interna.

Cabe então pensar: que mais eles querem? O quê devemos, como país, realmente oferecer?

Parte da resposta fazia parte da mesma palestra. Foi citado um estudo desenvolvido pela multinacional de consultoria A.T.Kearney, que foi publicado numa das edições da revista "The Economist" no meio do ano. Este estudo visava identificar características de países, para determinar, do ponto de vista dos Estados Unidos, quais seriam os países mais atraentes para a contratação de desenvolvimento "offshore".

Segundo os critérios escolhidos, o Brasil foi classificado neste estudo no terceiro lugar, entre todos os países analisados. Fomos superados, como país, apenas por Canadá (1o) e Índia (2o). É importante citar os fatores levados em conta na avaliação. Por exemplo, foram avaliados aspectos financeiros, os custos do desenvolvimento em cada país e a disponibilidade de mão de obra qualificada.

Mas, a conclusão da análise destes fatores é que eles não servem mais como diferenciais. Estes fatores são relativamente simples de manipular pelos governos, por exemplo, através de incentivos diretos ou indiretos, fiscais ou de outro tipo, ou da taxa de câmbio da moeda nacional frente ao dólar. Os altos salários pagos não foram capazes, por exemplo, de tirar a liderança do Canadá.

O fator considerado decisivo, segundo a A.T. Kearney, é uma característica abstrata chamada de "ambiente": a descrição dela abrange um conjunto de fatores que envolvem as características do mercado interno, a quantidade de e facilidade para as exportações, e a estabilidade desta situação, entre outros. Note como a capacidade de um governo nacional interferir no "ambiente" com medidas que causem impacto no curto prazo e tenham efeito duradouro é muito mais difícil.

Minha conclusão: se queremos, no nosso país, o estabelecimento de uma política governamental, então precisamos pensar em medidas de longo prazo.

É justamente sob esta ótica que analisei a apresentação seguinte no evento, a cargo de Arthur P. Nunes, secretário de informática do MCT. Seu discurso foi claramente favorável ao uso de software livre no país. Entretanto, a única marca ou produto citado foi o da Microsoft. Nenhum outro fornecedor, nem mesmo o Linux, foram citados nominalmente pelo secretário. Fica a impressão que o uso de software livre, na visão do atual governo, visa unicamente eliminar uma parte do déficit da balança comercial do setor de TI, digamos "por decreto". Quais os efeitos de longo prazo de uma medida deste tipo, em um país que deseja exportar?

Há poucos meses, Richard Stallman (fundador da Open Software Foundation), em entrevista ao ITWeb, confirmou que o Brasil é um dos países no mundo onde o movimento pelo uso comercial e governamental do software livre é mais intenso. Segundo ele, o objetivo principal do movimento de software livre, é educacional.

Para exportar em volume, não podemos, como país, pretender ser um ponto fora da curva. Sou responsável há mais de dez anos por uma empresa de pesquisa de mercado em TI e posso atestar que o Brasil tem o hábito de ser um ponto fora da curva: basta lembrar do "monopólio" da linguagem Clipper na era pré-Windows, ou no sucesso do Delphi e outras ferramentas da Borland no país.

 

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