A crise que assola uma boa parte das empresas do setor elétrico, com a AES Eletropaulo como ponta de lança (ou como querem alguns – nos quais não me incluo ponta do “iceberg”) é atribuída por praticamente todos os analistas, ao modelo de privatização. Esta opinião, como todas, é parcialmente correta. Ao identificar um "culpado” que já saiu de cena (o governo passado), os protagonistas atuais acham que salvam a “cara”.

Enquanto os fornecedores de tecnologia da informação preconizam o surgimento das empresas em tempo real, o que só é possível graças ao mundo amplamente conectado em que vivemos hoje, há um enorme número de empresas cuja cultura interna bate de frente com esta realidade.

Quando pensamos na empresa que reage instan¬tânea e inteligentemente às demandas de seus clientes, a presença de sistemas ou softwares como ERP e CRM é colocada como premissa. Ao mesmo tempo, proliferam exemplos, por todas as partes, de empresas que desprezam a inteligência de seus clientes.

O exemplo mais “batido” continua acontecendo: empresas emissoras de cartões de crédito enviando propostas a seus clientes, como se não o fossem.

Poderia achar que sou “azarado”, mas não é o que concluo conversando com muitas pessoas: vou me limitar a citar apenas algumas experiências reais e frustrantes pelas quais passei recentemente como consumidor. O cartão do meu banco é hoje um cartão múltiplo, mas a função de cartão de crédito precisa ser ativada separadamente, o que autorizei há algum tempo. Poucas semanas depois, o extrato mensal da conta corrente veio acompanhado de um impresso belíssimo, com muitas cores, prometendo creditar vinte reais na minha conta se eu ativasse a função de cartão de crédito do meu banco. Além de me fazer sentir um bobo (perdi vinte reais por ter me antecipado), conclui que meu banco não sabe quem eu sou: suas campanhas publicitárias afirmam o contrário, e, pasme, esta mesma instituição foi premiada como a mais inovadora em informática por esta publicação algumas semanas antes!

Passaram algumas semanas, quando recebi, de uma instituição em que minha empresa possui conta corrente, não uma, mas duas peças de mala direta (com mesmo nome e endereço, e códigos diferentes), oferecendo um limite de cheque especial que a conta da empresa já tem (claro, sujeito a análise de crédito).

Para não “pixar” apenas o setor financeiro, contarei que possuo, em casa, duas linhas de telefone, ambas em meu nome (além do mesmo nome, consta nelas o mesmo endereço, em todos os detalhes). Uma destas linhas é usada como conexão ADSL com a Internet, há muito tempo. Claro que já recibi várias propostas para instalar o serviço que possuo, de novo, e em ambas as linhas.

Esta mesma operadora exige de empresas que se candidatam a ser seus fornecedores a passagem por um processo de qualificação mais complexo e custoso que a participação em concorrências públicas (além das inúmeras certidões, toda cópia de documento tem que ser autenticada em cartório, o que, por lei, nem a Justiça não pode exigir mais – alguém aí lembra do Ministério da Desburocratização).

Agora me pergunto: será que essas empresas têm futuro como empresas em tempo real? Ou, quem será o “culpado” quando elas enfrentarem dificuldades de caixa? Prometo refletir no assunto e dar uma resposta plausível na próxima coluna. Até lá!