Nesta edição, dedicada a previsões para o novo ano, vou traçar algumas impressões pessoais sobre o futuro do mercado de aplicativos empresariais.

O primeiro fato a destacar é a dificuldade crescente das empresas fornecedoras do chamado software básico em comercializar seus produtos “per se”. A dificuldade da Microsoft e da Oracle em comercializar seus bancos de dados é a mesma que a IBM enfrenta para a venda de produtos como Notes e WebSphere.

Quando os parceiros comerciais ou a força de vendas diretas dessas empresas aborda clientes em potencial, encontram uma demanda por “soluções”: as empresas clientes não querem ou não podem mais arcar com o ônus de montar o quebra-cabeça composto pelas diversas camadas de software. Em vez disso, esperam que o fornecedor, ou um consórcio de fornecedores, ofereçam uma “solução” para os problemas da empresa. A combinação de hardware e software, ou entre vários tipos de software, é um fato cada vez mais comum.

A maior dificuldade, entretanto, reside nos chamados aplicativos. Não pretendo dar uma definição rigorosa do termo, mas podemos entender por aplicativo a um programa (ou conjunto de programas) que implementam regras do negócio das empresas. Note a omissão da palavra “sistemas”...

Soma-se a este quadro a tendência, verificada desde a passagem do chamado “bug do milênio”, da redução constante e progressiva do número de profissionais de desenvolvimento em atividade, seja em empresas da área de informática, seja em empresas usuárias. Até mesmo o número de software-houses vem diminuindo. O objetivo desta coluna não é analisar por quê isto ocorre, mas indicar que isto gerará novos problemas para as empresas usuárias no futuro, se mantido o modelo de “sistemas”.

Gosto de reservar o termo “sistemas” para aquele tipo de software que, para ser adaptado às peculiaridades de cada empresa, requer que um ou mais programadores criem ou modifiquem código fonte na mesma linguagem de programação (ou outra do mesmo nível semântico) usada originalmente no ambiente de desenvolvimento. Este modelo de “sistemas” é usado pela maioria das software-houses nacionais, mas também é adotado por algumas empresas multinacionais de software (SAP é um bom exemplo). Um sintoma conhecido é a dificuldade de se realizar “upgrades” de versões.

O resultado desse modelo é um alto custo para as empresas usuárias. Ao mesmo tempo, as empresas produtoras têm uma limitação no número de clientes que podem atender. Se a SAP está longe de ter dez mil clientes no mundo, todas as empresas nacionais de ERP somadas (empresas como Datasul, Microsiga, Logocenter, ABC71, etc.) atingem apenas vinte por cento das cem mil maiores empresas brasileiras. A razão? Preço!

Minha conclusão pessoal é que é necessário transformar os aplicativos empresariais em produtos de software: assim como os bancos de dados e produtos de workgroup ou colaboração, o código fonte dos aplicativos deve ser único para todos os usuários.

A customização dos aplicativos produtos deve se dar exclusivamente através de recursos implementados no próprio produto, que permitam aos usuários expressar suas peculiaridades em uma linguagem de nível mais alto, e a um custo menor. De quebra, passa a ser possível garantir a migração dos clientes para as novas versões dos produtos.

Para as empresas produtoras, esta estratégia permite atingir um número maior de clientes, o que por sua vez permite praticar preços menores. A informatização de um número muito maior de empresas pode ser um dos pilares de sustentação de um ciclo virtuoso para uma nova indústria nacional de software.

 

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