Esta coluna é dedicada a analisar a situação da Microsoft no mercado brasileiro de sistemas operacionais, onde ela possui hoje base instalada de sete sistemas operacionais diferentes (sem contar o recém lançado Windows XP). Nosso objetivo não é o de comparar sua atuação com a dos concorrentes, mas analisar sua posição única no mercado.

Os dados analisados foram extraídos das dezenove edições do relatório BRASIL Software, publicadas pela nossa empresa desde 1995 (nas datas indicadas no eixo horizontal), com estatísticas do mercado brasileiro de desenvolvimento de software e/ou sistemas, baseadas em amostras de cerca de 750 empresas. Extraímos, para cada um dos sistemas operacionais da Microsoft, seu índice de citação: note que as pesquisas medem o uso efetivo dos produtos.

A primeira observação é que a Microsoft foi muito mais bem sucedida na introdução de novos produtos no mercado do que no abandono do uso de produtos por ela considerados “obsoletos”. Enquanto em novembro de 2001 foram citados sete produtos da Microsoft, na pesquisa de seis anos antes eram apenas três. É interessante observar que o produto que na época era recém lançado (Windows NT) é hoje (ainda?) líder entre os produtos em questão, enquanto que os líderes da época ainda estão presentes, embora em quantidades muito pequenas. Mas, o quadro foi complicado por outros quatro produtos já em uso (Windows 95, 98, Me e 2000), e a oitava “encarnação” (XP) ainda não foi citada.

Outro aspecto é que, mesmo com a dispersão resultante da disponibilidade de um número tão grande de produtos, a marca Microsoft continuou a crescer em participação ao longo do período: enquanto os três produtos citados em novembro de 95 atingiam juntos um índice de 180%, agora em novembro de 2001, os sete produtos juntos atingem um índice ligeiramente superior a 200% (isto é, em média cada empresa, possui dois destes produtos em uso).

Um fenômeno revelado pela figura, pouco conhecido, é que os picos máximos de utilização de cada novo produto são, ao longo do tempo cada vez menores: o MS-DOS chegou a 97% no seu apogeu, o Windows 3.x e o 95 a 85%, o Windows NT a 75% o Windows 98 a 62%. As curvas do Windows 2000 e do Windows Me ainda não chegaram a seu ápice, mas uma extrapolação dos dados do gráfico leva a picos ainda menores.

Ao contrário do que se comenta habitualmente, sobre a velocidade das mudanças no mercado de informática, a entrada de cada novo produto no mercado gera um ciclo de substituição muito longo. Note que um produto como o MS-DOS, que já não é comercializado há meia década, ainda e usado por 3% das empresas (uma a cada trinta empresas pesquisadas).

Cabe então perguntar que acontecerá com estes produtos, na medida em que o ciclo de desenvolvimento e lançamento é cada vez mais rápido (observe que a distância entre o início das novas curvas se reduz ao longo do tempo). Os usuários dos produtos têm cada vez mais dificuldade em justificar novas compras de licenças, e mais, dificuldade em escolher qual o produto mais adequado a suas necessidades. O próprio marketing da Microsoft está cada vez mais focado neste problema: se sua empresa isto ou aquilo, use tal produto; caso contrário, tal outro. E a mudança do discurso ocorre a cada novo lançamento, o que ajuda a aumentar a confusão.

O último aspecto, conseqüência da situação descrita, é uma diminuição na velocidade das vendas: como a pesquisa é de base instalada, as vendas podem ser entendidas como o crescimento positivo do uso dos produtos (se o uso deles aumenta, eles precisam ser comprados – a menos dos “extraoficiais” e do shelfware, nome dado aos que são comprados para enfeitar as prateleiras das empresas). No último ano, o produto mais vendido foi, sem dúvida, o Windows 2000. Entretanto, sua curva começa a ficar menos inclinada muito antes de chegar a sequer 50%.

A atualização de produtos “obsoletos” é uma importante fonte de receita para a Microsoft. Portanto, sua tentativa de mudar o modelo de vendas, substituindo o licenciamento de produtos pela venda de assinaturas (que dão direito a atualizações contínuas) deve ser entendido simplesmente como uma tentativa de manter e/ou aumentar esta receita e eliminar a confusão gerada pela diversidade de produtos disponíveis.