Há muito tempo atrás (mas nem tanto para precisar ter cabelos brancos para lembrar), a grande maioria das empresas que dispunham de sistemas de informática eram usuárias de computadores ditos de grande porte, mais conhecidos como mainframes.

Foi nessa época que as principais profissões relacionadas a informática foram estabelecidas: naquele tempo era bem clara a distinção, por exemplo, entre analistas e programadores, e seus respectivos gerentes. Outras se sucederam, como administradores de bancos de dados, especialistas em operação de CPDs, entre diversos outros (que talvez criem um ar de saudades em alguns leitores).

A adoção maciça da arquitetura cliente-servidor, vendida sob o nome de “downsizing”, a partir da segunda metade dos anos oitenta, resultou na utilização cada vez maior de servidores de menor porte e no uso de PCs (no sentido de serem compatíveis com o IBM PC) como estações de trabalho (no lugar dos terminais “burros” do mainframe.

A criação de sistemas neste ambiente foi simplificada pelo surgimento de linguagens de programação como, por exemplo, o Clipper. O uso de linguagens como esta para o desenvolvi¬mento de sistemas transformou, em pouco tempo, analistas em programadores e programadores em analistas. Anúncios em jornal passaram a procurar analistas-programadores e programadores-analistas. A distinção entre as várias profissões diminuiu drasticamente. O mesmo profissional, além da análise e da programação, passou a ser responsável pelo projeto das bases de dados, da implantação e do acompanhamento da operação dos sistemas. Se quisermos ser irônicos, talvez seja por isso que tão poucos funcionaram. Mas, é fato que a grande maioria dos usuários destes sistemas não tinham uma rotina de backup de dados, muito menos de contingência em casos mais graves. Sim, o administrador de segurança é mais um papel do profissional típico desta época.

Outra característica do mercado, herdada da simplicidade do desenvolvimento, foi a possibilidade de que pessoas recém formadas, ou autodidatas, pudessem criar sistemas. Para ser dono de uma software-house, não era em absoluto necessário possuir formação acadêmica em computação.

O que aconteceu depois? A história é bem conhecida: o grande sucesso das interfaces gráficas, que tomaram o mercado por assalto na primeira metade dos anos noventa, acrescentou uma nova componente ao desenvolvimento de sistemas. Linguagens como Visual Basic e Delphi foram as principais ferramentas daqueles que passaram a desenvolver software para este ambiente. É importante notar entretanto, que a grande maioria dos desenvolvedores não aprendeu a tirar bom proveito da interface gráfica. Não vamos nem falar na qualidade dos ícones usados na maioria dos softwares, houve casos de softwares para Windows comercializados no mercado onde as opções de menu eram numeradas (exatamente como faziam no ambiente Clipper!).

Na segunda metade dos anos noventa, a grande novidade da informática foi a Internet. Mas ela era tratada como coisa de especialistas: afinal o desenvolvimento de sites, sejam eles apenas institucionais ou provessem comércio eletrônico, passou a ser função de novas profissões, como as de webmaster e web designer.

Na medida em que a integração entre todas as peças passou a ser o diferencial de produtos de software de produtos como o Microsoft Office, os aplicativos de empresas como Oracle, Peoplesoft ou SAP, e de muitos outros, os usuários passaram a considerar “natural” poder consultar seus dados pela web, de onde estivessem.

Mas, os agora “legados” sistemas, fossem eles do tempo do Clipper ou do Visual Basic ou do Delphi são incompatíveis com estas necessidades. Uma grande parte dos profissionais que atuavam com desenvolvimento, passaram a se especializar na implantação de softwares de terceiros, enquanto alguns desenvolvedores se concentraram apenas no desenvolvimento. A criação de ícones, logotipos e outros elementos gráficos passou a ser a especialidade de artistas gráficos armados com softwares especializados neste tipo de atividade.

E assim, gradativamente, estamos voltando pra era dos mainframes, onde cada tipo de profissional de informática tem a sua especialização. Essas máquinas são hoje raridade no mercado, mas a organização das equipes é cada vez mais parecida com a da época em que estes equipamentos dominavam o mercado.