Há pouco mais de dois anos foi anunciada pela Microsoft a saída de Bill Gates do cargo de principal executivo da empresa (foi substituído por Steve Ballmer), para voltar a se ocupar integralmente de questões relacionadas a arquitetura de software. A maioria dos analistas de mercado opinou, na época, que Bill Gates estava deixando a linha de frente por causa do processo antitruste da justiça americana. Outros acharam que ele estava “colocando o burro na sombra”, isto é, deixando de ter um papel efetivo no dia a dia da empresa.

Entretanto, há alguns meses a Microsoft vem anunciando aos sete ventos a arquitetura .net como a mais nova invenção de Bill Gates.

A arquitetura .net é uma iniciativa da Microsoft que introduz algumas novidades no Windows e dá nova roupagem a outros aspectos nem tão novos. Mas sua abrangência é tão grande que é difícil explicar em poucas palavras.

O principal objetivo da iniciativa .net, do ponto de vista das linguagens de programação, é simplificar o desenvolvimento de aplicações para a Internet. Na visão da Microsoft, “simples” obviamente significa privilegiar aqueles que já usam sua tecnologia. Pessoalmente, entendo que é por isso que, pela primeira vez desde seu lançamento, a linguagem Visual Basic está sendo modificada (em todas as novas versões, até a versão 6.0, as modificações foram limitadas ao ambiente, a novas bibliotecas e controles) na sua essência: a transformação dos formulários do Visual Basic em templates para páginas HTML é um aspecto, a introdução da herança como recurso da linguagem é outra (sim, Bill Gates muda de opinião).

É claro que para que uma aplicação desenvolvida usando o Visual Basic .net funcione como previsto, todo o ambiente deve ser padrão Microsoft: browser, sistema operacional, web server. Se a Microsoft for bem sucedida com a arquitetura .net, ela estará transferindo sua posição mercadológica digamos “privilegiada” para os domínios (o leitor desculpe o jogo de palavras) da Internet.

Ao mesmo tempo, o risco que a Microsoft está assumindo é maior que o de qualquer um de seus concorrentes: a adoção da arquitetura .net pela própria Microsoft é tão severa que todos seus produtos já foram ou estão sendo modificados para comportar esta novidade. O mercado capitalista costuma reservar as recompensas maiores para aqueles que correm riscos maiores.

Se olharmos para o passado, verificamos que a Microsoft está repetindo no mínimo duas estratégias das quais ela já se valeu no passado: a primeira é a citada “transferência” de mercados. Por exemplo, foi assim que ela venceu a chamada guerra dos browsers: baseada no argumento de que o Internet Explorer era melhor por integrar-se melhor ao Windows do que seus concorrentes, ela transferiu a posição mercadológica do Windows para seu browser.

A segunda estratégia que está sendo aplicada, menos falada, é a conquista do mercado através dos desenvolvedores: se o desenvolvimento de aplicações para Internet realmente for tão mais fácil usando o VB .net do que outras plataformas, a existência destes aplicativos será um argumento muito forte para vender os demais produtos da Microsoft. A mesma estratégia de transformar os desenvolvedores autônomos em aliados foi um dos pilares da vitória do Windows sobre o OS/2.

E se não der certo? Se a arquitetura .net for um fracasso, ainda assim ela terá sido útil: em primeiro lugar, ela trará um grau de consistência maior aos produtos da Microsoft. Em segundo lugar, mesmo que apenas uma pequena parcela dos usuários da plataforma Microsoft migrem para esta arquitetura, haverá um número suficiente de usuários para garantir a continuidade da plataforma.

Resumindo: se der certo, a Microsoft transferirá sua posição de mercado para a Internet; se não der certo, ela terá uma posição suficiente para gerar receitas que permitam continuar investindo em novos desenvolvimentos. Foi assim que o próprio Windows virou sucesso apenas na terceira encarnação.