Nesta série de artigos sobre o mercado brasileiro de tecnologia da informação, é a vez agora das linguagens de programação. Os dados mais recentes, publicados no relatório Brasil Software de julho 1999 (este relatório é publicado pela nossa empresa; para mais detalhes consulte http://www.mbi.com.br), indicam que este mercado é bem diferente do dos sistemas operacionais. A razão parece bastante óbvia, mas é citada poucas vezes: implantar um novo sistema operacional significa, na maioria das vezes, sacrificar uma noite ou um final de semana, para atualizar o sistema. Como hoje não existe sistema operacional novo que não execute as aplicações já existentes (exceção feita ao Linux), talvez o máximo necessário para executar as aplicações sejam alguns ajustes finos do ambiente.

Já para se substituir uma linguagem de programação, é necessário ensinar a nova linguagem aos desenvolvedores da empresa, dar tempo para que adquiram fluência nessa linguagem, reescrever os sistemas existentes nessa nova linguagem, implantá-los e depurá-los, para finalmente desativar os sistemas velhos. A duração deste tipo de processos é medida, quase sempre, em meses ou anos.

É por isso que enquanto a média de sistemas operacionais por empresa praticamente dobrou nos últimos quatro anos, a quantidade média de linguagens de programação por empresa avançou de 1,9 para apenas 2,2 em quatro anos! Esse crescimento corresponde a um modestíssimo índice anual de apenas 3,7%. É esta a razão pela qual nenhuma das grandes empresas de software tem como carro-chefe nas vendas uma linguagem de programação. As linguagens sempre são posicionadas como elementos estratégicos para vender outros produtos.

A Figura 1 exibe a evolução da base instalada das linguagens de programação usadas atualmente em 3% ou mais das empresas desde fins de 1995. A pequena velocidade das mudanças neste mercado explica porque faz apenas um ano que o Visual Basic superou o Clipper, uma linguagem ainda baseada na interface caractere, e que não recebe atualizações significativas há quase uma década. É importante frisar que nenhuma empresa está desenvolvendo novas aplicações em Clipper, mas praticamente um terço das empresas ainda mantêm aplicações em Clipper.

Outra presença forte, da qual a imprensa dificilmente fala, é a linguagem Cobol. Ela está presente em praticamente um quarto das empresas e sua situação esteve relativamente estável nos últimos anos. Só mais recentemente ela parece estar perdendo terreno, provavelmente em função da substituição de sistemas antigos em Cobol por sistemas de gestão empresarial (ERPs).

Outra linguagem muito pouco comentada, mas tão estável quanto o Cobol, é o (anacrônico, segundo alguns) Assembler. Sua base instalada está estabilizada na faixa de 6% das empresas há muitos anos.

Olhando para a Figura, a liderança de mercado do Visual Basic não parece que venha a sofrer alguma ameaça nem a curto nem a médio prazo. Embora o Delphi venha crescendo sistematicamente, é fácil observar na Figura que a distância entre ele e o Visual Basic tem se mantido quase constante ao longo do tempo.


Figura 1 – A evolução da base instalada das linguagens de programação

Outro aspecto interessante relacionado ao Delphi é observar que se trata de um produto que acabou canibalizando o espaço de outros produtos do mesmo fornecedor (no caso, a Inprise), como é o caso do Borland C++, do Pascal para Windows e do Turbo Pascal. Comparativamente, a perda de posições do Visual C++ (da Microsoft) com o crescimento do Visual Basic foi menor, tanto em termos absolutos e ainda mais em termos relativos.

Finalmente, vale a pena citar a presença, principalmente nas empresas de porte maior, das linguagens PowerBuilder (da Sybase) e Centura Builder/SQL Windows (da Centura). A evolução da base instalada retrata sua fidelidade a esses produtos.

Na próxima coluna abordarei o efeito da linguagem Java neste mercado.